
O Vazio do Espelho e a Inversão de Valores.
O VAZIO DO ESPELHO E A INVERSÃO DE VALORES. Por Nestor de Almeida. Um texto para refletir, debater nas empresas, escolas, em família e na sociedade.
Convido você a fazer uma reflexão sobre um comportamento destrutivo que desenvolvemos silenciosamente e que nos leva a tratar o nosso semelhante de forma inadequada. Isso nasce, primeiramente, da nossa própria insegurança. Sentimos a necessidade de demonstrar poder e, para isso, escolhemos certas pessoas nas quais enxergamos alguma fragilidade. É a partir daí que externalizamos o racismo, o preconceito, a gordofobia e tantas outras formas de discriminação.
Qual é a origem desse comportamento? A desvalorização do ser humano. Uma pessoa que não reconhece o próprio valor não tem zelo pela própria vida, pelo seu corpo e por suas conquistas. Ao olhar no espelho, ela percebe um vazio existencial e, por precisar de tantos artifícios para suportar a própria existência, torna-se incapaz de enxergar a dignidade e a singularidade no seu semelhante.
Não se respeita aquilo a que não se atribui valor. “Valor por ser gente, independentemente de características físicas, bens materiais ou intelectuais.” Mesmo com tantas leis que surgiram nos últimos tempos, percebemos que a situação não melhorou; pelo contrário, tem piorado. Ninguém ama ou respeita o próximo por obrigação ou decreto. As leis podem até inibir comportamentos, especialmente quando há o medo da exposição, mas elas não alcançam o sentimento. No fim, é o que sentimos que acaba se transformando em ação.
Você já percebeu que, quando acontece um ato violento contra alguém, muitas vezes a vítima é usada para fortalecer bandeiras políticas ou ideológicas? Imediatamente surge um parlamentar criando uma lei com o nome daquela pessoa, dando início a uma guerra de narrativas entre o lado “A” e o lado “B”. Às vezes, parece que há quem sinta satisfação com a tragédia apenas para tirar proveito em benefício de suas próprias causas, agindo com total desrespeito à memória da vítima.
“Para descobrir o valor de uma pessoa, é preciso ter a capacidade de entender os sentimentos dela. Isso não é um ato de dó ou caridade, mas de boa vontade para ser uma pessoa boa. Uma pessoa que não negocia os seus valores.”
Enquanto o ovo de uma tartaruga for considerado mais importante que uma criança no ventre da mãe; enquanto um trabalhador, que se esforça o mês inteiro para sustentar a família, for humilhado por criminosos e vir a sua perda ser tratada pela justiça como algo sem importância; enquanto um jovem vir o celular que comprou com o salário do mês ser roubado; e enquanto um pai de família, que comprou uma moto para trabalhar, for assassinado — deixando esposa e filhos passando necessidade e com profundas feridas emocionais, sabendo que o criminoso já foi preso dez ou quinze vezes e liberado por cometer crimes de “pouca importância” —, qual será o valor dado a essas vítimas? Repito: não se respeita aquilo a que não se atribui valor. E o valor não está nas palavras, mas nas atitudes.
Não são os slogans que vão mudar o comportamento das pessoas. Eles são bonitos para fingir que estamos fazendo alguma coisa ou para demonstrar que não esquecemos os atos de desrespeito praticados no dia a dia. Pedimos respeito aos idosos que já fizeram tanto por esta nação, mas o próprio Estado decreta uma desapropriação e força famílias a deixarem as residências que construíram com tanto esforço. Há prazos rígidos que devem ser cumpridos, sem qualquer preocupação com a quantidade de idosos que vivem ali, muito menos com a saúde ou com a situação financeira deles.
Contudo, se no início das obras descobrirem um ninho de passarinho, o projeto é paralisado e as máquinas só retornam depois que os ovos forem chocados e a mãe pássaro retirar seus filhotes por livre e espontânea vontade. Da mesma forma, uma mãe pobre com dois filhos, sentada na calçada pedindo ajuda, não recebe a mesma atenção ou cuidado que uma gata com dois filhotes. Quem está sendo mais valorizado?
Diante disso, você já se perguntou por que as campanhas contra o racismo, o preconceito e a violência contra mulheres, crianças e idosos não surtem efeito? Os números mostram que esses casos só aumentam a cada ano. A resposta é mais simples do que se imagina: não se respeita aquilo que não fomos ensinados a valorizar. Qual é o valor que as pessoas têm para você? Quem te ensinou a valorizar alguém apenas por sua condição humana? Fomos deseducados a valorizar pelo que a pessoa tem a oferecer, e não pelo que ela é — independentemente de sexo, raça, cor, crenças, conta bancária ou sucesso.
É por isso que a primeira escola de valorização se chama lar. Não importa se esse lar tem tudo ou se carece de recursos pela falta de dinheiro. O filho que é valorizado como filho aprende a valorizar os pais, os avós e os irmãos; e, quando sai de casa, passa a valorizar também os professores e os colegas na escola, estendendo esse respeito para toda a sociedade. Não podemos ficar esperando essa atitude do Estado. É um processo longo e demorado, mas precisamos começar.
Precisamos fazer, urgentemente, uma mudança em nosso comportamento. É fundamental valorizar o ser humano em uma realidade onde a sociedade tem sido educada a priorizar as coisas em detrimento das pessoas. “Como ponto de partida, precisamos identificar as correntes da sociedade que têm contribuído para a desvalorização do ser humano e conscientizar sobre o estrago que isso está causando na humanidade, do nascer ao envelhecer.” Poderia levantar centenas de outros pontos que demonstram essa desvalorização, mas deixo para o leitor o convite de passar a notar isso no dia a dia. E, quem sabe, começar a agir diferente.
Nestor de Almeida: escritor, palestrante, storytelling e debatedor.
Whatsapp: 11-96260-5811
Instagram: @nestordealmeida5950
Youtube: Nestor de Almeida